sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Macacos e homens

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Na Tailândia, os plantadores de coco usam macacos para fazer a colheita. Eles dão conta do recado direitinho e nem precisam de ferramentas. Em troca de algumas bananas, giram o fruto até quebrar a haste e ainda se divertem atirando os cocos lá de cima. Parece que a prática é antiga. E tão eficiente que os agricultores decidiram utilizar a técnica para colher mangas, mas não deu muito certo. Delicadas, as mangas devem ser retiradas no ponto certo para amadurecer e, se atiradas do alto, ficam imprestáveis para o consumo. Como a tarefa é mais complexa, o pagamento com bananas não fez o mesmo efeito. Quando um macaco mais esperto conseguiu retirar a fruta certa, o plantador ficou tão feliz que, para comemorar, abraçou o bicho. Na mesma hora, ele subiu na árvore e pegou outro fruto – do jeitinho do primeiro – e voltou para buscar um novo abraço. Hoje, a produção de mangas da Tailândia é colhida em troca de abraços e todos estão rindo à toa. Macaco não quer só comida. Também quer amor, diversão e arte. Faz sentido.

Nós também somos capazes de fazer qualquer coisa por um chamego. Mesmo alimentados, bebês choram pedindo colo. Maiorzinhos, se não têm atenção, fazem birra. Adolescentes, fazem barulho. Adultos, tornam-se arredios ou chatos. Se alimento fosse tudo, as pessoas que comem três vezes por dia seriam felizes, equilibradas e saudáveis. Apenas os famintos cometeriam crimes, ultrapassariam sinais fechados e brigariam pelo controle remoto da TV. Mas não é bem assim. Os macacos estão certos. Na maioria das vezes, tudo o que precisamos é de um abraço. Artigo que se torna cada vez mais raro que um prato de comida.

Na Tailândia, a colheita de mangas pelos bichinhos é um sucesso. Mas nunca será tão simples quanto a de cocos. É que, embora os macacos andem fazendo fila atrás de uma vaga no serviço, eles rejeitam abraçadores profissionais. Preferem aqueles que se mostram sinceramente agradecidos por seu desempenho.


jornalista Lucia Sauerbronn

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Crônica publicada na Coop Revista - Outubro / 2000

Texto na íntegra: Crônicas Lúcia Sauerbronn

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