Mostrando postagens com marcador Philip Yancey. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Philip Yancey. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Caminhando debaixo do arco-íris - III

image

No relato do ministério de Jesus sobre a Terra, só vejo uma vez em que se aproximou de um estado semelhante ao “esgotamento”. No Jardim do Getsêmane, Jesus caiu prostrado em terra e orou. O suor rolava com gotas de sangue. Suas orações tomaram tom não característico de implorações. Diz Hebreus 5.7 que ele “tendo oferecido, com forte clamor e lágrimas, orações e súplicas a quem o podia livrar da morte”, sabia, é claro, que não seria liberto de morrer. Enquanto essa consciência crescia em si, Jesus sentiu angústia. Não tinha uma comunidade que o apoiasse – estavam todos dormindo.

Contudo, uma mudança dramática ocorre entre a cena do Getsêmane e tudo o que se segue. Os relatos dos evangelhos sobre o Getsêmane mostram uma pessoa angustiada e em grande sofrimento. Depois do Getsêmane, mostram uma pessoa que, mais que Pilatos, mais que Herodes, está no pleno controle da situação. Leia os relatos dos julgamentos. Jesus não é vítima: está sereno, o mestre do seu destino.

O que aconteceu no jardim que fizesse a diferença? Temos poucos detalhes sobre o conteúdo das orações de Jesus, pois os que podiam ser testemunhas estavam dormindo. Talvez ele recordasse todo seu ministério sobre a Terra. O peso de tudo que ficou sem fazer poderia talvez pesar sobre ele: os discípulos eram instáveis e irresponsáveis, o movimento corria sérios riscos, o mundo ainda era lar de maldade e muito sofrimento. O próprio Jesus parecia estar nos limites do que um ser humano pudesse suportar. Ele não tinha maior prazer com a idéia de dor e morte do que eu ou você.

Mas de alguma forma, no Getsêmane, Jesus trabalhou a crise, transferindo o fardo sobre o Pai. Era a vontade de Deus que ele viera cumprir, afinal, e sua oração se resolveu nas palavras “Todavia, não seja como eu quero, e sim como tu queres” (Mateus 26.39). Não muitas horas depois ele podia clamar a profunda verdade: “Está consumado” (João 19.30).

Oro perdido esse senso de desligamento, de confiança. Oro para que eu veja o meu trabalho, minha vida, como uma oferta a Deus a cada dia. Aprendi que Deus é um Deus de misericórdia, de compaixão, de graça – um chefe confiável, certamente. Deus, e Deus somente, tem as qualificações para ajudar-me a enfrentar o caminho escorregadio entre amor pelo próximo e amor por mim; um caminho ladeado pela hipersensibilidade e pelo calo.

Philip Yancey

 

________________________________

Fonte: Igreja, por que se importar?

Caminhando debaixo do arco-íris - II

image

Estive em Calcutá, Índia, lugar de pobreza, morte e problemas humanos irremediáveis. Lá, as irmãs da ordem de Madre Teresa servem a quem são, talvez, os mais pobres e miseráveis sobre o planeta: corpos semimortos que encontram nas ruas de Calcutá. O mundo se surpreende com a dedicação dessas irmãs e com os resultados desse ministério, mas algo me impressiona ainda mais sobre essas freiras: a sua serenidade. Se eu estivesse à frente de um projeto de tal monta e falta de esperança, certamente eu estaria correndo como barata tonta, mandando por fax declarações à imprensa e a doadores, implorando por mais recursos, engolindo tranqüilizantes, procurando maneiras de lidar com o desespero crescente.. Mas não essas irmãs.

Sua serenidade vem do que ocorre antes delas começarem o dia de trabalho. Às quatro horas da manhã, muito antes do Sol raiar, as irmãs se levantam. Vestidas de impecáveis hábitos. Antes de se encontrarem com o primeiro “cliente”, se inundam de louvor no amor de Deus.

Quando chegam visitante à casa da comunidade, as missionárias pedem que iniciem sua visita com oração na capela. A própria Madre Tereza costumava receber a cada visitante com o convite: “Vamos primeiro saudar o Senhor casa. Jesus está aqui”.

Não percebo pânico nas irmãs que dirigem a casa para os moribundos e destituídos de Calcutá. Vejo compaixão e preocupação amorosa, sim, mas nenhuma obsessão sobre o que não conseguiram fazer. Essas irmãs trabalham para completar uma folha de casos de assistência para uma agência de serviço social. Estão trabalhando para Deus. Começam cada dia com ele, terminam o dia com ele, e tudo o que acontece no meio apresentam como oferta a Deus. Deus, e somente Deus, determina o valor e mede o seu sucesso.

Philip Yancey

 

___________________________

Fonte: Igreja, por que me importar?

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Nariz santificado

image

Porque nós somos para com Deus o bom perfume de Cristo, tanto nos que são salvos como nos que se perdem. Para com estes, cheiro de morte para morte; para com aqueles, aroma de vida para vida – 2 Coríntios 2.15

De acordo com Paulo, o mesmo perfume pode transmitir cheiros muito diferentes, variando conforme o nariz que o aspira. Para quem não crê, nossa fé carrega o mau cheiro da morte. Ela trás a recordação incômoda da mortalidade e de outro mundo que julgará este. Para quem não crê os exemplos de negação pessoal e amor sacrificial provocam, no máximo, admiração pela "ética cristã". Pense no que atrai audiência receptiva: bilionários e estrelas de cinema que escrevem biografias que vendem como água. Mas até hoje não vi na lista dos mais vendidos um livro contando a história de um líder de uma igreja de favela. Só ocasionalmente a televisão exibe um documentário sobre a vida de um "santo" como, por exemplo, a Madre Teresa de Calcutá. A audiência deste programa, porém, não pode comparar–se à de um programa de auditório ou à de uma novela. Para estes, somos o cheiro da morte, o odor que pairava como uma nuvem sobre a Madre Teresa, literalmente, porque ela escolheu servir a Cristo no meio daqueles que estavam à morte. A ordem religiosa que ela criou se dedica hoje a organizar hospitais para pacientes com Aids.

A sabedoria da Cruz parece loucura para o mundo, e Paulo confessou que para ele também pareceria, se não fosse por um evento que aconteceu dois dias após a crucificação. Os que acreditam que a ressurreição aconteceu de verdade recebem, por assim dizer, um novo conjunto de receptores olfativos. Para além do mau–cheiro da Sexta–feira Santa, podem agora detectar a fragrância surpreendente da nova vida. Por esta razão, e exclusivamente por ela, vale a pena crer. Ao entender o argumento de Paulo, se não houver ressurreição, não há motivo para dominar impulsos sexuais ou violentos. Por que se importar com os pobres e aleijados? Por que procurar a humildade e o serviço enquanto outros buscam a satisfação de seu ego? Uma vida de tantas lutas será alvo de piedade e não de inveja. Ela exala o cheiro da morte, para rodos, exceto para os que possuem nariz santificado.

Philip Yancey (Adaptado)

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

O segredo espiritual do rei Davi

image

O SENHOR é o meu pastor, nada me faltará – Salmo 23.1

O livro dos Salmos, em particular os setenta e três atribuídos a Davi, constituem–se em uma janela para a alma dele. Alguns trazem comentários introdutórios revelando as circunstâncias em que foram escritos. É importante lermos o diário espiritual de Davi nos Salmos e a partir da evidencia deste registro "interior", nos voltarmos para o registro histórico nos livros de Samuel.

Vemos nos Salmos a forma como Davi enxergava a vida. Suas proezas — matar animais selvagens só com as mãos, vencer Golias, sobreviver às investidas de Saul, dispersar os filisteus – certamente lhe granjearam posição de destaque na História. Mas, ao refletir sobre estes eventos e escrever poemas sobre eles, encontrou um jeito de tornar Jeová, o Deus de Israel, o centro das atenções. Davi experimentou a presença de Deus. Quer expressasse esta presença em poemas sublimes de louvor, quer em reclamações comuns, de qualquer forma envolvia Deus, intencionalmente nos detalhes de sua vida.

Davi confiava no interesse que Deus tinha por sua vida. Durante toda sua vida Davi acreditou, de verdade, que o mundo invisível de Deus – o céu, os anjos e tudo mais – era tão real quanto seu próprio mundo de espadas, lanças, cavernas e tronos. Os salmos constituem–se no registro de seu esforço consciente para submeter sua vida cotidiana à realidade do mundo invisível que era maior do que ele.

De alguma forma, no processo de compor, Davi foi capaz de levantar seus olhos voltando–os para o céu, acima dele. No mais improvável dos cenários, ele vem a afirmar: Deus reina.

Assim como Davi, passamos por situações em que nossa resistência acaba, o medo se instala, parece que Deus se afastou e as forças hostis nos cercaram. Em momentos assim volto–me para os Salmos. Suspeito que Davi os escreveu como uma forma de terapia espiritual, um caminho para voltar–se para a fé quando seu espírito e suas emoções vacilavam. E hoje, muitos séculos depois, podemos usar exatamente as mesmas orações como passos de fé, caminho que nos liberta da obsessão conosco mesmos e nos leva à verdadeira presença de nosso Deus.

Philip Yancey (Adaptado)

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

JÓ e os enigmas do sofrimento

image

Por Philip Yancey

Ao aflito livra por meio da sua aflição, e pela opressão lhe abre os ouvidos - Jó 36:15

"Por que eu?" Quase todo mundo faz esta pergunta em meio ao sofrimento. Em grandes ou pequenas circunstâncias – um terremoto em outro país ou no diagnóstico de uma doença – enfrentamos questões angustiantes sobre por que Deus permite que sintamos dor.

Ironicamente, os cristãos em sofrimento obtêm conforto no livro de Jó. Digo "ironicamente" porque Jó levanta mais questões sobre o sofrimento do que responde. O final do livro – uma fantástica aparição pessoal de Deus – parece o cenário perfeito para um monólogo esclarecedor. Deus, porem, evita por completo o ponto central da discussão anterior. E as várias teorias sobre a origem do sofrimento, todas agradáveis ao ouvido, propostas pelos amigos de Jó são desfeitas por Deus, com um olhar severo.

Este livro, relato espantoso de coisas ruins acontecendo a um homem muito bom, não contém uma teoria compacta mostrando por que as pessoas boas sofrem. Apesar disso, oferece algumas percepções rápidas sobre o problema da dor. Meu próprio estudo levou–me às conclusões que se seguem. Não respondem o problema da dor – nem mesmo Deus tentou fazer isso. Mas esses princípios jogam luz sobre certos conceitos errôneos tão comuns hoje quanto no tempo de Jó.

1. Os capítulos 1 e 2 mostram um fato importante de forma sutil: Deus não causou diretamente os problemas de Jó. Permitiu que acontecessem, mas Satanás foi o agente causador.

2. Em nenhum lugar do livro é sugerido que Deus não tenha poder ou não seja bom. Algumas pessoas (até mesmo o rabino Kushner, em seu livro muito conhecido Quando Coisas Ruins Acontecem com Pessoas Boas) alegam que um Deus fraco não tem poder para evitar o sofrimento humano. Outros, deístas, presumem que Ele dirige o mundo a distância, sem envolvimento pessoal. Mas o livro de Jó não discute o poder de Deus, só sua justiça. Em seu discurso final, em que resume as conclusões, Deus apresenta ilustrações esplendidas da natureza para demonstrar seu poder.

3. Jó, decididamente, rejeita uma teoria: a de que o sofrimento sempre vem em resultado ao pecado. A Bíblia confirma o princípio geral de "o homem colhe o que semeia", até mesmo nesta vida (veja Salmos 1:3, 37:25). Mas as outras pessoas não têm qualquer direito de aplicar esse princípio geral a uma pessoa em particular.

Os amigos de Jó foram persuasivos ao defender que ele merecia aquela punição catastrófica. Quando Deus, porém, apresentou o veredicto final, disse para eles:

Não dissestes de mim o que era reto, como o meu servo Jó. (42:7)

(Posteriormente, Jesus também falaria contra a idéia de que o sofrimento implica, automaticamente, pecado anterior. Veja João 9: 1–5 e Lucas 13:1–5.) Não tendo uma crença claramente definida na vida após a morte, os amigos de Jó presumiram, erradamente, que a justiça de Deus – sua aprovação ou não das pessoas – teria que ser demonstrada nesta vida.

4. Deus não condenou as dúvidas nem o desespero de Jó, apenas sua ignorância. O dito popular "a paciência de Jó" dificilmente se encaixa com a torrente de censuras que saíram da boca dele, que não aceitou sua dor em mansidão, mas gritou em protesto contra Deus. Suas palavras fortes escandalizaram seus amigos (veja, por exemplo, 15:1–16), mas não chocaram Deus.

Será que precisamos de preocupar–nos se ofendemos Deus de alguma forma em uma explosão causada pela tensão ou pela dor? De acordo com este livro, não. Num toque da maior das ironias, Deus ordenou que os amigos de Jó seguissem seu exemplo de arrependimento, logo ele que era objeto de condescendência piedosa.

5. Ninguém conhece tudo sobre o sofrimento. Jó concluiu que ele estava certo e Deus era injusto. Os amigos insistiam em que a verdade era o oposto: Deus era justo e Jó estava sendo punido por alguma coisa que fizera. Por fim, todos aprenderam que viam a situação a partir de uma perspectiva limitada, cegos à verdadeira guerra que acontecia no céu.

6. Deus nunca fica totalmente em silêncio. Eliú defendeu este ponto de forma convincente, relembrando a Jó sonhos, visões, bênçãos passadas e até mesmo as obras diárias de Deus na natureza (capítulo 33). Deus, da mesma forma, usou a natureza como evidência de sua sabedoria e de seu poder. Embora pareça que Deus está em silêncio, algum sinal de sua presença ainda pode ser encontrado. O escritor Joseph Bayly expressou a mesma verdade: "Na escuridão, lembre–se do que aprendeu na luz."

7. Algumas vezes os conselhos cheios de boas intenções prejudicam mais do que ajudam. O comportamento dos amigos de Jó é um exemplo clássico de como o orgulho e o sentimento de estar com a razão podem sufocar a verdadeira compaixão. Eles repetiram frases piedosas e discutiram teologia com Jó, insistindo, teimosamente, em suas idéias equivocadas sobre o sofrimento (idéias que, na verdade, continuam a perseguir a Igreja). A resposta de Jó: "Tomara vos calásseis de todo, que isso seria a vossa sabedoria!" (13:4,5).

8. Deus mudou o foco da questão central: da causa do sofrimento de Jó para a reação dele. Misteriosamente, nunca explicou o problema do sofrimento e nem informou a Jó os acontecimentos registrados nos capítulos 1 e 2 do livro. A questão principal em jogo era a fé: se Jó continuaria a confiar em Deus mesmo quando tudo deu errado.

9. O sofrimento, no propósito de Deus, pode ser redimido ou usado para um bem maior. No caso de Jó, um período de grandes lutas foi usado por Deus para chegar a uma vitória importante, até mesmo cósmica. Ao avaliar o que passou – mas só depois que já passou – podemos ver as "vantagens" obtidas por Jó por continuar a confiar em Deus. Através de seu sofrimento imerecido, Jó apontou para Jesus Cristo, que viveria uma vida perfeita, e mesmo assim enfrentaria a dor e a morte para chegar a uma grande vitória.

* * *

Milhares de anos depois, as perguntas de Jó ainda permanecem. Os sofredores ainda utilizam as palavras dele como um grito contra a aparente falta de interesse de Deus. Mas o livro de Jó afirma que Deus não está surdo aos nossos gritos, e controla este mundo, apesar de às vezes parecer que não. Deus não respondeu a todas perguntas, mas bastou sua presença para que as dúvidas desaparecessem. Jó aprendeu que Deus se preocupava com ele. Aprendeu, ainda, que o Todo–Poderoso controla o mundo. Isso foi suficiente para ele.



 
^

Powered by Bloggerblogger addicted por UsuárioCompulsivo
original Washed Denim por Darren Delaye
Creative Commons License

BlogBlogs.Com.Br